Mexilhões de Boa viagem: Histórias que se encontram 

Quem passa pela praia de Boa Viagem, localizada no município de Niterói, não os observa. Ali o tempo é outro a maré que dita como será o dia de trabalho dos marisqueiros e marisqueiras. Quando saem de casa bem cedo esperam que o mar esteja calmo, a agitação é sinônimo de um dia de trabalho mais demorado ou perdido. Um lugar onde se encontra a natureza com histórias de homens e mulheres ligados a um único propósito garantir sua subsistência.

Maricultor segura o fruto do seu trabalho às margens da Ilha de Boa Viagem

Morador da comunidade de Antares, em Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, Adeir  no ano de 1995 tinha apenas 15 anos quando sua família veio morar na comunidade do Morro do Palácio, localizada no bairro do Ingá, em Niterói, onde alguns parentes já residiam. Foi como ajudante do irmão que começou sua trajetória com o mexilhão. E com muita determinação após três dias ele comprou seus próprios equipamentos.

Sua jornada de trabalho começa cedo acordando às 5 horas da manhã e indo para a ilha de boa viagem onde ele exerce seu trabalho.

”A gente acorda muito cedo geralmente todos trabalham cerca de 12 horas por dia, pois é uma atividade muito cansativa a gente não pode parar, já que ensacar demorar muito porque tudo a gente que faz”

Diz Adeir

O processo  é feito da forma mais simples possível, mas exige muito esforço braçal, isso porque o cozimento e retirada da carne da casca é feito com as mãos e os mexilhões são cozidos na lenha, em galões que produzem muita fumaça que acaba atingindo os olhos.


Catadora de mexilhão há 43 anos, Iraci Cândido  da Conceição, mais conhecida como Tia Jura, veio de Rio Bonito ainda muito jovem quando decidiu morar no morro do Palácio há 50 anos. Atualmente, mesmo aposentada não parou de exercer sua profissão. O mar ajudou a garantir a criação dos seus filhos e ainda hoje é um meio de ajudar sua família trabalhando como ajudante. Mesmo não sabendo nadar, tem dias que ela faz a coleta do mexilhão tirando da superfície das rochas. ” Minha vida é isso aqui eu não largo a praia, pois quando eu estou sem dinheiro é o mar que me ajuda”, conta. 

Dona Jura retirando as cascas do mexilhão cozido, ainda quente.

 Sentada em uma cadeira próximo aos galões com lenha ao lado de uma pequena montanha de areia  coberta por conchas o calor parece não ser percebido,  pois a agilidade compõe suas mãos calejadas em ritmo acelerado, retira, um a um, os moluscos de dentro da casca enquanto comenta que a pouco foi tirar sua identidade, mas descobriu que havia perdido boa parte de suas digitais com o passar dos anos. Resultado de movimentos repetitivos, sua exposição e vulnerabilidade por falta de proteção de qualquer tipo aparente. Foi através desse trabalho árduo que pode construí a casa onde mora.

” Minha casa é bem pequena com um quarto, cozinha e banheiro fui construindo aos poucos com o dinheiro do marisco sou muito agradecida por conseguir com tanto esforço”

Diz Dona Jura

Os marisqueiros e marisqueiras buscam, há anos, por uma situação de trabalho digna. Salete Feliciano é uma delas. Ao lado do marido, trabalha com mexilhão na Ilha da Boa Viagem há 15 anos. Quando  percebeu ter algumas pessoas que trabalhavam com o marisco como estavam desempregados resolveram encarar, pois a vida nunca foi fácil.

” trabalho aqui é bem cansativo com muita luta e dificuldades nós arrancamos o marisco das pedras ou ele mergulha depois nós descascamos o produto e embala para vender muitas vezes não temos compradores e temos que ir atrás. Nossa maior dificuldade enfrentada no dia a dia é quando o mar está batendo porque nós tiramos o nosso sustento daqui. Se trabalha você tem, se não trabalha você não tem.

Diz Salete
Salete em um momento de descontração senta sobre as pedras da contenção na praia de Boa Viagem

Diariamente um novo desafio se impõe para essas mulheres uma rotina de trabalho múltipla faz com que o trabalho não se limite ao marisco, pois, muitas delas retratam que precisam cuidar das atividades domésticas antes e após exercerem suas funções como marisqueiras.

Para as pessoas contempladas, o projeto chegou como uma forma de garantir condições melhores de trabalho. Dentre as ações do projeto destaca-se o fato de levar apoio aos marisqueiros e marisqueiras da praia de Boa Viagem com infraestrutura e equipamentos necessários para a pesca e beneficiamento dos seus pescados, que atualmente estão em um processo de organização de cooperativa. Contribuindo para o desenvolvimento cotidiano das pessoas, proporcionando boas práticas, construção de políticas públicas, estímulo à participação social, melhores condições de trabalho, através de oficinas educativas

Um comentário

  1. Que delícia conhecer um pouco mais da história desse povo tão querido. Está sendo gratificante participar desse momento histórico na vida deles, atuando como estagiária administrativa/financeira tenho realizado pesquisa de preços e compras de materiais e equipamentos.
    Tenho visto como eles estão alegres e como vibram na chegada de cada material, equipamento, e como estão ansiosos para verem os barcos prontos.

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